Beni Borja O guru

8Jun/110

Harmonia Disfuncional

Caríssimos,

Música como definiu  o compositor francês Edgar Varése,  é o som organizado. O som , como a física nos ensina, é uma seqüência de ondas de ar que chegam aos nossos ouvidos.

O compositor é portanto um organizador de sons,  alguém que se dedica a esculpir o ar.

Escultores criam objetos artísticos  tridimensionais. Para os escultores do ar as três dimensões desse objeto que chamamos de música  são  o tempo – o ritmo , a altura – a melodia e a profundidade – a harmonia.

O ouvinte comum entende naturalmente as idéias de ritmo e melodia, porque elas são coisas que existem desde sempre na natureza.

O pingo de chuva que bate na pedra  marca um tempo, definindo um ritmo , os pássaros que cantam  são uma fonte inesgotável de melodias.

Por outro lado, a harmonia ,sendo uma criação da imaginação humana ,  não é uma coisa simples de entender, por isso exige uma explicação.

Voltemos por um instante ao começo de tudo.

O nosso imaginativo antepassado que criou a música  tinha apenas o seu próprio corpo como instrumento. Ele bateu o pé no chão para definir um tempo e cantou. Ritmo e melodia foram estabelecidos por esse intrépido homem das cavernas.

Algum tempo depois, outro espírito criativo resolveu chamar um amigo para cantar com ele. Nesse momento nasceram a harmonia, a composição e começou a confusão.

A confusão se deu, porque o  inventor da harmonia tinha uma idéia sobre o que o seu amigo devia cantar (a composição) , e o seu amigo teve uma outra idéia.

Nesse momento fatídico, começou uma discussão, que só teve solução quando o compositor exerceu sua prerrogativa de autor: a autoridade , dizendo que a música era dele , e que se o amigo não quisesse cantar o que ele tinha proposto , ele ia chamar outra pessoa para ajudá-lo.

Essa questão da autoridade do compositor continuará sempre ocorrendo enquanto se fizer música com mais do que uma voz, porque combinação de vozes – também conhecida em música como harmonia - é apenas uma questão de gosto.

Sim, meus amados leitores, esqueçam tudo o que te disseram. Porque na verdade os compositores  inventam  as regras de harmonia só para justificar aos intérpretes das suas obras  a necessidade de fazer o que eles queriam.

Não existe o acorde certo , não existe obrigação de seguir nenhuma cartilha. Quem cria a música está sempre harmonicamente certo, mesmo que o resultado pareça estranho, ou soe totalmente  errado.

Debussy e Thelonius Monk, por exemplo, estavam definitivamente combinando as notas erradas para os padrões da época em que eles compuseram suas obras. Com o passar dos anos os ouvidos se acostumam a uma  nova proposta estética, os erros viram criatividade,  e os desafinados de hoje viram os gênios de amanhã.

Mas é certo que para cada  um dos cada gênios que expande a profundidade da música, ampliando o seu campo harmônico, existem mil criadores de música que são apenas ignorantes das convenções do bom gosto de juntar notas.

Por isso, no eterno desejo de simplificar as coisas para ensinar quem está chegando agora no imprevisível terreno da música, os professores inventaram essa desgraça chamada “harmonia funcional”.

De fato  ela funciona, e quem adere às suas regras simplistas nunca parecerá estranho para os ouvidos médios.

O problema é que essa famigerada harmonia ¨funcional¨, que é a simplificação radical das ¨regras¨ da harmonia  usada no ensino da música popular, praticamente  exterminou a invenção harmônica nas novas gerações de compositores. Para quem aprendeu música por esse método , o acorde “certo” não é apenas uma entre muitas possibilidades , é uma lei imutável da natureza.

Andei ouvindo os sucessos do rádio, coisa que não fazia há muito tempo. Uma pergunta surgiu na minha cabeça após algumas músicas. O que aconteceu com a harmonia ?

A grande maioria das canções que tocam insistentemente no rádio ignora solenemente a existência de harmonia como recurso musical.

Por isso ouvimos toda hora composições novas dos mais variados estilos que parecem que já foram feitas antes. A falta de qualquer pretensão de invenção harmônica , a repetição mecânica das mesmas velhas progressões, torna boa parte da produção de música popular uma massa sonora indistinguível.

Quem tem a pretensão de escapar desse lugar comum, ou descarta a harmonia quase inteiramente como faz o hip-hop e suas variantes, ou experimenta com tecnologia eletrônica , que pôs a micro-tonalidade na ordem do dia.

Então quer dizer que a harmonia tradicional morreu? Que não serve prá nada? Claro que não. Seria uma burrice completa , desprezar a experiência acumulada de séculos na arte de combinar timbres, simplesmente porque hoje temos mais timbres para combinar.

Mas é certo que tomar o conhecimento acumulado do passado como regra imutável é o caminho mais certo para enterrar de vez a harmonia na música.
Ousemos minha gente!  Porque  quem inova em qualquer arte, deve necessariamente desafiar as regras do bom gosto convencional.

Não será repetindo as fórmulas da harmonia funcional que alguém vai criar  a música do futuro.

Saudações musicais,
Beni

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8Jan/110

Muita Teoria e Pouca Prática

Muita teoria e pouca prática

“Quem gosta de arte é banqueiro , artista gosta é de dinheiro” .

A frase ,cujo autor  desconheço , é obviamente um absurdo , já que para fazer arte é preciso apreciá-la. Mas  ela chama atenção para uma verdade fundamental sobre a atividade artística.  O problema insanável e permanente do artista é fazer dinheiro com a sua obra.

Parece ter se perdido de vista, nessa discussão recente sobre o direito autoral, a razão essencial da existência dessa precária construção jurídica : Garantir o equilíbrio nos negócios entre criadores e os consumidores da sua criação .

É importante  lembrar que não foram os direitos autorais que “inventaram” a criação. Negócios entre criadores e consumidores  acontecem desde muito antes de existirem leis sobre isso. Os direitos autorais são apenas a garantia que o  Estado oferece para os negócios privados de comércio da criação. Só isso.

Quando compramos um cacho de banana na feira não pensamos sobre as implicações legais desse gesto, porque nesse  ato comercial simples as partes usualmente ficam relativamente satisfeitas com o negócio. Com ênfase no “relativamente” , já que em negócios não há nunca satisfação total possível.

Mas se as bananas estiverem estragadas, ou se a virmos um cacho semelhante por metade do preço em outra banca da feira , subitamente nos recordaremos dos direitos dos consumidores e de outras garantias legais.

Quando um negócio entre particulares dá certo , quando as partes saem da negociação com a sensação de que fizeram o melhor negócio possível, ninguém se lembra de recorrer à Justiça.

A lei e a Justiça só aparecem, quando o negócio deu errado, quando alguém se sente injustiçado.

Lembro de outra frase, essa do governante reformista chinês Deng-Xiao-Ping - “Não importa a cor do gato, o que importa é que ele pegue o rato”. O que importa na prática para o artista não é o direito que ele tem sobre a sua obra , o que importa finalmente é o “din-din” que vai bater na sua conta.

Muitos atores nessa pantomima querem vesti-la como uma questão de princípios. Como se houvesse alguma divergência fundamental sobre o poder do artista sobre a sua obra entre o campo dos “modernautas” do Creative Commons e os “reacionários” do velho direito do autor.

Papo furado. A questão central de toda essa discussão é mesmo o velho e bom vil metal.

Observo que enquanto a classe musical está em pé-de-guerra sobre uma reforma dos direitos autorais , criadores de outras formas de arte raramente se manifestam sobre o tema.

Ocorre que nós músicos e compositores, estávamos  descansando na praia , justamente na hora em que o tsunami digital chegou arrastando tudo. Então é natural que sentindo nos nossos bolsos os seus efeitos devastadores, sejamos os primeiros a chiar. Mas em breve, escritores e cineastas juntarão suas vozes a essa gritaria.

Mas todo esse alarido serve para muito pouco , enquanto ninguém sabe qual é o negócio possível entre os criadores e os consumidores de obras reproduzíveis.

O problema é que o negócio de vender a arte que pode ser reproduzida está em fluxo , vivendo uma transformação acelerada que vai nos levar a algum lugar ainda desconhecido.

Esse é o “X”  da questão. Porque as leis são criadas para estabelecer a equidade entre as partes  em modalidades de negócio que já existem na realidade do mundo.

Voltando à feira. A lei obriga o feirante a aferir sua balança porque  se vendem coisas a peso nas feiras. O “dever ser” da lei só existe porque a prática do mercado já definiu seus parâmetros.

E no momento não há parâmetros no mundo digital, porque o negócio que existia está sendo desmontado , e o novo negócio ainda não apareceu. Portanto discutir novas leis nesse momento é antes de tudo intempestivo.

Por outro lado, temos que convir que não será tentando manter a qualquer custo um modelo de negócios que faz água por todos os lados , que vamos conseguir melhorar o saldo bancário dos criadores.

Um pouco mais de pragmatismo comercial e um pouco menos de idealismo jurídico, fariam muito bem a essa discussão.

Se os detentores de direitos autorais  forem mais receptivos a idéias novas sobre como fazer dinheiro com as suas obras, e os “geeks” forem mais receptivos a idéia de que criadores têm contas para pagar como todo mundo, podemos acelerar muito o inevitável processo de tentativa e erro que levará ao aparecimento de um novo modelo de negócios para a criação artística.

Resumindo : Tem muito direito e pouco negócio nessa discussão.  Quem gera dinheiro , que é o que anda faltando no  bolso dos criadores, são os  negócios, não os direitos.

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